quinta-feira, 24 de abril de 2008

Cabos

Na maioria dos sistemas de gravação de áudio ou sonorização, geralmente os cabos são os elementos mais simples e baratos de toda a cadeia. Seu custo representa uma pequena fração do valor dos equipamentos que interconecta. Mas nem por isso deixa de ser importante. Esse "ator coadjuvante" exerce papel essencial para a performance do músico, e seu mau funcionamento pode inviabilizar o espetáculo! Em um momento de inspiração poética, eu diria que os cabos são como as veias que carregam o sangue e o distribui aos órgãos do corpo humano, fazendo o mesmo com o som (na forma de sinal elétrico) para os instrumentos e equipamentos de áudio.

Todos já devem ter ficado na mão um dia por causa de um cabo que misteriosamente parou de funcionar ou sofria de OSMAR (os mar contato!). O amigo violonista Joviano Junior (JJ), traumatizado com situações desse tipo em sua carreira, radicalizou e montou um cabo P10 ultra-resistente com cabo de aço de telefone público!!! Depois disso, nunca mais deu defeito, rs!


Exageros à parte, uma polêmica interessante que envolve esse componente é: cabos semelhantes mas de diferentes modelos/fabricantes fazem realmente alguma diferença no som? Há diferença audível entre um cabo P10 simples que custa R$10 e outro que custa R$100? Vários músicos e engenheiros divergem sobre essa questão, cada qual defendendo sua teoria de que há ou não diferença perceptível. Na verdade, ambos estão corretos, pois existem situações em que cabos distintos não produzem diferença audível nenhuma, mas em outras sim.

Espessura: É muito comum no meio amador encontrar cabos finos, do mesmo tipo utilizado para instrumentos, interligando o amplificador às caixas de som. Esse tipo de cabo, ao percorrer vários metros de distância, pode apresentar uma resistência à passagem do sinal de 1 ou 2 Ohms. Isso não significa muita coisa quando se fala na conexão de um teclado à mesa de som, cuja impedância de entrada é da ordem de centenas ou milhares de Ohms. Por outro lado, ao fornecer grandes potências às caixas, é bom lembrar que a impedância típica dos auto-falantes é, geralmente, da ordem de 4 a 8 Ohms. Portanto, um cabo com resistência elétrica de 1 Ohm irá dissipar praticamente 25% da potência fornecida pelo amplificador a um auto-falante de 4 Ohms! Assim, quanto maior a bitola (ou diâmetro) dos condutores, menos dificuldade ou resistência haverá para a passagem do sinal amplificado.

Plugues de Ouro: Terminais banhados a ouro podem ser uma vantagem, não apenas pela boa condutividade elétrica desse metal, mas também porque o ouro é extremamente maleável e tem a capacidade mecânica de se moldar ao conector. Além disso, é um material altamente inerte e resistente à corrosão. Metais oxidados pelo efeito da corrosão criam uma camada de cristais em sua superfície que podem captar sinais indesejáveis de rádio frequência, o que não acontece com o ouro. Entretanto, em razão do seu alto custo, a camada de ouro que reveste o plugue é bastante fina; com isso, se você plugar e desplugar o cabo com muita frequência, o atrito gerado vai aos poucos reduzindo a espessura dessa camada, causando a perda dos benefícios do ouro ao longo do tempo. Logo, cabos banhados a ouro são mais indicados para aplicações em que as conexões são fixas e permanentes. Para o dia-a-dia (ensaios, aulas, apresentações, etc), acredito que não vale a pena pagar tão caro por um cabo desses. Aquele cabo genérico cumpre sua função tão bem quanto o outro. E se aparecer algum sinal de corrosão, basta limpá-lo com um removedor de ferrugem facilmente encontrado no comércio.


Prata x Cobre: Tecnicamente, para determinada bitola de cabo, a prata apresenta menor resistência elétrica que o cobre. Entretanto, como mencionado anteriormente, pequenas diferenças na resistência do cabo não exercem praticamente nenhuma influência na interconexão de instrumentos musicais, visto que a impedância desses dispositivos geralmente é muito alta. Como a prata é um metal relativamente caro, sai mais em conta usar um cabo de cobre com uma bitola um pouco mais larga, o que significa uma resistência ainda menor. E, quanto menor a resistência, maior a capacidade de transferência do sinal.

Concluindo, se você não percebe diferença audível entre um cabo caro e outro intermediário na ligação do seu instrumento para as aplicações do dia-a-dia, fique com o cabo mais simples, pois esse com certeza irá te atender plenamente, e ainda vai sobrar uma grana pra dar um upgrade no seu setup!


Leia também:

9 comentários:

  1. Fala Brunão, vc sabe que eu sou meio cético a essas frescuras de cabo. Já muito nêgo falar (principalmente os guitarristas, que se dizem muito exigeten (fresco)) que comprou um cabo disso com plug daquilo e que o som ficou muito melhor.

    Na minha cabeça, muito muito dificilmente o cabo será o problema na qualidade do som (pode até ser que seja um mau contato no plug ou jack, devido à oxidação ou solda mau feita).

    É bom ressaltar que o cabo sendo blindado (imune a ruídos externos) e não tendo a bitola desses de fones de walkman, para que a resistência aumente a ponto de comprometer a qualidade do som, esse cabo teria que ter centenas de metros.

    Utilizando a nossa fórmula de cálculo da resistividade (R=rô*L/A), para um cabo de 0,75mm², para que a resistência desse cabo seja de 1 ohm (o que é uma resistência muito pequena), o cabo teria que ter 42m.

    Se o cara tiver um mega super ouvido e conseguir identificar a diferença entre um sinal afetado por uam resistência de 5 ohm, o cabo teria que ter mais de 200 metros (logicamente, para essa dimensão, a impedância capcitiva talvez já passaria a ser significativa também).

    Concluindo, continuo achando a maior frescura esse negócio de que o "meu cabo é da marca xyz" e ele proporciona um melhor som por causa disso e daquilo.

    Cabo bom é o cabo que não tenha defeito de mau contato (muitas vezes o problema é na entrada do instrumento ou do aparelho).

    Abração!

    ResponderExcluir
  2. É isso aí, Roger!
    Nada como um comentário bem fundamentado tecnicamente para enriquecer o assunto!

    Abraço!

    obs: Roger é Mestre em Engenharia Elétrica e domina o assunto como poucos.

    ResponderExcluir
  3. Apesar do conhecimento que o cara de cima postou venho trazer meu conhecimento com a experiência que tenho sobre o assunto!!!

    Desde já agradeço à lembrança em um dos tópicos do seu blog Bruno, o Blog tá show...

    Em relação a cabo depois de mais de 10 anos como violonista realmente passei por maus bocados devido ao problema com cabos. Um cabo novo, independente da marca pode até ser útil mas em um curto espaço de tempo. Sua durabilidade é baixíssima se comparado com cabos de qualidade.

    Já percebi em diferentes tipos de cabos e plugues, sensíveis diferenças como altura do som do instrumento e ruídos. Cabos de menor qualidade, aliado logicamente à qualidade dos plugues em um curto espaço de tempo de uso aprensentam ruídos e os problemas de OSMAR citados no texto.

    Cabos de melhor qualidade, cito aqui a marca Santo Ângelo, mantém a qualidade e pureza do som depois de um bom tempo de uso e não necessitam de ficar trocando os plugues e as soldas periodicamente.

    Outro problema que encontrei durante esse tempo foi a quebra devido a pisar em cima do cabo. A última solução que encontrei foi adquirir um cabo rígido que têm uma qualidade indiscutível e que por ser feito de material semelhante ao dos orelhões, vai ter uma durabilidade bem maior evitando a quebra.

    Fecho minha participação salientando que gastei muito mais dinheiro adquirindo vários cabos de má qualidade que tinham um pequeno tempo de utilidade do que comprando um cabo de maior qualidade que, esse sim, resolve o problema.

    Deixo a dica, se você precisa dos cabos, gaste um pouco mais, compre um cabo de qualidade. Você acha realmente que ele seria tão mais caro se não houvesse diferença para os outros???

    Um abraço a todos,
    JJ(O mesmo do texto...hehehehe)

    ResponderExcluir
  4. Obrigado pelo elogio, JJ!
    Concordo com você no que diz respeito à resistência física e durabilidade. Geralmente esses cabos mais caros tem uma vida útil maior e resistem mais aos trancos e barrancos do dia-a-dia.
    Entretanto, com relação à qualidade do áudio, meu ouvido ainda não é tão desenvolvido e apurado a ponto de perceber qualquer diferença no som.

    Abraço!

    ResponderExcluir
  5. Olá Bruno,
    Um abraço e parabéns pelos posts do teu blog, são muito bons.
    Quero dar um testemunho sobre minha experiência com cabos e respondendo ao comentário do amigo BuracoInvest. Sou guitarrista e certa vez estava utilizando um cabo na guitarra, cabo este que estava jogado lá em casa havia um tempo. Percebi que o som da guitarra estava abafado e a distorção estava sem ganho, não é frescura, realmente estava sem ganho. Só fui perceber que a culpa era do cabo depois que o troquei por um cabo novo.
    A partir deste dia nunca mais usei cabo velho, mesmo estando sem mau contato.
    Uma dica: sempre guardem um cabo reserva, já salvou a minha vida algumas vezes e com certeza vai salvar outras...

    Abs,
    Conde

    ResponderExcluir
  6. Obrigado pelo comentário, Marcondes!

    Possivelmente esse seu cabo que deu problema deve ter sofrido algum tipo de oxidação (ferrugem) causada pela ação do tempo...

    Abraço!

    ResponderExcluir
  7. Parabéns pelo blog irmão. Realmente vale a pena dar sempre uma olhadinha por aqui. Minha experiência humilde só leva em conta o que foi dito sobre o bom plug, boa solda para "osmar". Mas acho chato esse negócio de o os materiais internos do cabo oxidarem por dentro deixando-nos insatisfeitos com a "potência" que sai de nosso equipamento. Por onde entra ar ou água, já que os fios estão cobertos?
    Abraço,
    Fica com Deus,
    Daniel Mateus.

    ResponderExcluir
  8. Oi, Daniel!
    Apesar dos cabos estarem cobertos, os terminais (plugues) estão expostos. Geralmente, é por aí que se inicia o processo de oxidação, que pode se extender e adentrar o cabo.

    Obrigado pela participação!

    Bruno.

    ResponderExcluir