terça-feira, 27 de março de 2012

Roger Waters The Wall Live em Buenos Aires

Por Thiago Carvalho.


Muito bem, eis que chego de viagem e vejo no meu e-mail um convite do senhor Bruno Mariani: “Barata, que tal fazer um relato do show do Roger Waters pro Grave em Casa?” Óbvio que não poderia recusar!



Primeiramente, um apelo. Se você que está lendo esse texto é do time dos que pensam “Legal, show do Roger Waters, mas gostaria de ver mesmo era um show do Pink Floyd”, sugiro fortemente que você se desapegue dessa mentalidade e vá correndo assistir a esse show. Vá mesmo! Até porque isso é o mais próximo possível de um show do Floyd que você pode chegar hoje em dia. David Gilmour e Nick Mason não estão no palco, mas a banda que acompanha o Waters nessa turnê é primorosa, toca todas as músicas com enorme fidelidade e, ao mesmo tempo, com um toque pessoal de cada um dos músicos na execução. A saber: a responsabilidade de executar as partes do Gilmour no show é muito bem exercida por Dave Kilminster e Snowy White (guitarras) e pelo Robbie Wyckoff (voz), todos músicos de competência inquestionável. Só não dá para fechar os olhos e fingir que é o Pink Floyd completo no palco porque nesse show não se pode sequer piscar os olhos! Se você gosta de boa música (e se está entrando nesse blog, acredito que se enquadre nesse perfil) não pode perder esse show. Se você gosta de mega produções, não deveria de jeito nenhum perder esse show. Mas se você gosta de Pink Floyd, te digo que você responderá no dia de juízo se não tiver uma boa justificativa para ter perdido esse show!

Feito o apelo, vamos lá.


Might like to go to the show?


Como bem representado na capa do Delicate Sound of Thunder, um show do Pink Floyd é uma junção megalômana e perfeccionista de som e imagem. Quanto à imagem, até que dá para ter alguma ideia do que se passa em um evento desses pela gravação em vídeo do Pulse. Mas o apuro dos músicos do Pink Floyd com o som em um show... isso só estando presente no local para entender. Sempre tive esse desejo e só agora pude realizá-lo.

E dá para dizer: é tudo o que eu pensava e mais um pouco!

Chego, sento na minha cadeirinha a 10 metros do palco, olho pra frente e vejo duas torres de PA Line Arrays apontados na minha direção. Penso comigo: “É, a porra vai ser séria!”. Mas falamos de Roger Waters, o cara que peitou shows quadrifônicos já na década de 70. Então é preciso olhar para todos os lados.



Na imagem dá para ver que existem mais três conjuntos de PA pendurados nas torres de delay no meio do campo. Além disso, mais caixas de som são espalhadas ao longo das arquibancadas superiores do estádio. Ou seja, a plateia fica cercada pelo som e o estádio se transforma em um enorme home theater. O resultado é impressionante: em momentos como no final de “In the Flesh?”, quando é projetado o som de caças em voos rasantes, todos passam a olhar para cima procurando os benditos aviões. O mesmo ocorre com som do helicóptero no começo de “Another Brick In The Wall”, por exemplo. E mais do que isso: mesmo estando em um estádio com mais de 40 mil pessoas é possível escutar com detalhes as nuances de cada instrumento! Mas se o som é um escândalo, o mesmo vale para as imagens. Na foto acima também dá para ver os três abrigos de onde saem as projeções para o palco. E pelo tamanho e quantidade de projetores, já deu pra ter uma ideia da qualidade das imagens, certo? São vídeos em altíssima definição, melhor do que a que pode ser vista em cinemas, por exemplo.



Nessa foto é possível ter uma dimensão do tamanho do muro. Ele avança pelos dois anéis inferiores do estádio. E nesse caso estamos falando do Monumental de Nuñez, um dos maiores da América Latina (compare a altura das pessoas no final do muro). Quanto ao comprimento, a parede cenográfica avança de um lado ao outro do estádio. É grande pacas, muito maior do que eu tinha imaginado. O resultado são imagens com essa qualidade. Não custa relembrar que estamos em um estádio, ao ar livre, não em um cinema.





Is this not what you expect to see?


Ir para o show do The Wall é como assistir o novíssimo remake de seu filme favorito. Você já conhece todo o roteiro, já sabe a ordem das músicas, conhece os elementos principais que certamente estarão lá, mas está curioso para ver o resultado do toque pessoal do novo diretor e no uso das novas tecnologias em prol da velha história. No caso do show, você sabe que vai ver um muro ser construído entre você e a banda; sabe que assistirá boa parte do espetáculo sem ver a banda completa; sabe que vão pintar os famosos bonecos gigantes e a projeção das sensacionais animações criadas por Gerald Scarfe para o filme de Alan Parker. Também já entra no estádio esperando ver tudo o que está ligado a uma apresentação do Pink Floyd/Roger Waters: projeções de efeitos sonoros, lasers, maquete gigante de avião sobrevoando a plateia, um porco voador gigante, vídeos surrealistas projetados na grande tela circular do meio do palco...
Sim, tudo isso está presente no show.

A diferença – e aí está a beleza do álbum conceitual com uma temática atemporal – é que essa nova turnê foi desenvolvida dando destaque a uma temática mais antibélica. Se enquanto a turnê/filme do início dos anos 80 enfoca o papel dos traumas pessoais do Waters na construção do seu muro, levantado entre o artista e as outras pessoas, nesse novo show a ênfase é no papel das guerras e conflitos armados humanos na divisão entre as pessoas. Agora, cada pessoa que morre de forma estúpida em algum conflito imbecil ao redor do mundo se transforma em um tijolo no muro. Agora, o muro que sobe divide em frações a humanidade inteira. E o efeito visual e sentimental disso no show é absolutamente chocante.






Aí entra na história o caso do Jean Charles, morto pela polícia inglesa no metrô de Londres em 2005. Você deve ler por aí que o Waters fará uma homenagem a ele durante o show. E deve pensar: deve ser uma imagem dele no telão ou algum discursozinho do Waters para agradar os fãs brasileiros, um tipo de “I Love Brazil, Carnaval, Caipirinha” mais politizado e só. Nada disso! Primeiro que não é uma homenagem para o show brasileiro e sim algo que fez parte de todos os shows da turnê mundial (deduzo isso pelo que vi no show em Buenos Aires, a confirmar). E segundo, que não é bem uma homenagem e sim um capítulo a parte dentro do roteiro do show, com animações próprias e tudo. E quer mais? Ele canta uma música nova sobre o caso Jean Charles, com um arranjo inspirado na harmonia de Another Brick In The Wall (não encontrei a letra na internet). Ou seja, o show terá todas as músicas do álbum duplo The Wall com mais essa nova música sobre o caso Jean Charles. E só! Quer mais?

Homenagem a Jean Charles.


Outra coisa que achei bacaníssima do espetáculo é a forma como a atenção da plateia é conduzida durante a apresentação. Tudo minuciosamente calculado para que a todo tempo seus olhos se surpreendam com algo novo. Você escuta sons de aviões te sobrevoando e olha pra cima, mas quando volta os olhos para o palco o muro já mudou totalmente de cor! Você foca os olhos em um tijolo aberto do muro, quando de repente vira o pescoço e vê que foi montado um quarto de hotel pendurado no muro exatamente na sua frente e você nem percebeu que algo estava sendo feito no palco antes das luzes chamarem sua atenção pra lá. Você observa um músico cantando de cima do muro quando de repente ele desaparece e surge exatamente do lado dele um guitarrista mandando um solo daqueles... o efeito de um sumindo e outro aparecendo, feito com uso de holofotes e roupas pretas, é perfeito! E nisso você passa o show todo falando: “Mas que diabos de bruxaria foi essa!”.







Mas toda essa pirotecnia é conduzida em prol da reflexão da história. Um momento muito bonito acontece durante o intervalo, na metade do show. Durante os 15 minutos de pausa são projetadas no muro imagens de pessoas assassinadas em conflitos armados no mundo, com um pequeno texto dedicado a cada uma delas explicando as circunstâncias de sua morte (os brasileiros Jean Charles, Chico Mendes e Sérgio Vieira de Melo aparecem nesse momento). São 15 minutos de uma plateia atônita, involuntariamente parada de frente para um enorme muro, refletindo sobre tantas atrocidades. E quando o show volta, eis uma parede gigante na tua cara e mais nada. A banda está inteira do outro lado tocando o belíssimo dedilhado de Hey You e você não tem para onde olhar enquanto escuta versos como “The wall was to high as you can see / No matter how you try you cannot break free”. Não tem o que fazer. Você é forçado a encarar o muro enquanto a música acontece. E aí, meu amigo, minha amiga, não tem jeito: depois de 15 minutos lendo sobre tragédias humanas, com a parede mais famosa da música bem na sua frente enquanto uma das harmonias mais belas da história do rock corre pelos autofalantes do estádio, é impossível você não se arrepiar a cada “can you feel me” da letra.




É um tremendo soco no estômago. Talvez agora, por escrito, pareça bobo, mas ficar isolado da banda pelo muro te dá uma sensação muito estranha. Não tem como descrever, o jeito é você ir lá para entender. O muro cai, mas a sensação fica.



Enfim, é isso tudo. Esse show consegue o que quase nenhum outro conseguiu: fazer o público refletir de verdade sobre a mensagem passada. Roger Waters conseguiu, mais uma vez, ir além na sua arte. Palmas, muitas palmas para ele, porque o cara é realmente foda.

Roger Waters
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Thiago Carvalho, o Barata, mora em Brasília - DF, é guitarrista da banda de rock DF76, fã incondicional do Pink Floyd e agora colaborador oficial do Grave em Casa!







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3 comentários:

  1. Porra Barata. Sua resenha ficou ótima. Acho que estou ferrado no dia do Juízo Final. Não vou conseguir ir ver o show. Que merda...
    Só com a sua resenha já me arrepio imaginando toda essa megaprodução.
    Parabéns!!! Você não passaria fome fazendo resenha de shows. Aliás, tá aí uma nova profissão que você pode seguir.
    Rafael Costa Morgado (Costinha)

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    1. Valeu, Costinha. Obrigado!
      -Barata

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  2. Realmente, irmão,
    Vc foi um privilegiado por ter participado de um evento destes. Mas o melhor foi sua sensibilidade artística e técnica para captar um pouco do que você testemunhou (não achei termo melhor que esse) e colocá-lo da melhor maneira possível aqui para nós. Dá, quase, pra sentir a emoção de estar lá...
    Parabéns e obrigado!

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